Carta de um feto à sua mãe

 Texto de Marlene Nobre, do livro O clamor da Vida (Editora FEB)

Querida mamãe,

Não tenho palavras para exprimir-te a ansiedade e a sofreguidão com que me precipitei  sobre aquele pequenino globo de luz que me ofereceste como semente abençoada, colocando-me a ele, como um náufrago agarra-se à tábua salvadora.

Depois, tranqüilizei-me. Afinal, já era senhor de um grânulo microscópico, um pequeno torrão de açúcar, repleto de energia. Todinho meu! Senti-me importante, recebera de ti e de meu pai uma herança de valor inestimável. Veio, então, aquela sensação gostosa de potência, de que eu era capaz de vencer, apesar de todas as angústias que trazia por dentro.

Escorreguei, depois, por um longo tubo, como se estivesse em um tobogã, rolei, rolei e caí em uma caverna escura, mas, engraçado!, não tinha medo. O seu interior era aconchegante, com sucos nutritivos, poças cheias de líquidos tépidos e solo de veludo.

Todos os mecanismos da minha herança trabalhavam a pleno vapor. Eu já tinha o tamanho de uma cabeça de alfinete. Intimamente, sabia que alguma coisa não funcionava bem, mas eu tinha fé, acreditava que aquela angústia que trazia por dentro, um dia, terminaria.

Como o barro nas formas de oleiro, plasmava meu corpo nas retortas desta caverna. Desenvolvi-me. Cresci, obedecendo a um programa inexplicável.

Um dia, mostraram a minha imagem para ti, aconselhando-te a expulsar-me, porque era malformado, trazia imperfeições. "Era um monstro!", Foi uma tempestade dentro da caverna, onde me abrigo, Tuas lágrimas eram chuvas torrenciais. Teus pensamentos, raios fulminantes de luminosidade terrível a espraiar-se no ambiente escuro: "Por que Deus me esqueceu? Por que me castigou? Por que recebo em meu ventre um fruto deteriorado? De que me culpam?"

Recolhi todos os teus pensamentos e todas as suas angústias. E, desesperado,

do fundo da minha inconsciência, respondi:

"Mamãe, Deus não te esqueceu. Ele te escolheu! A mãe de filhos eficientes é missionária do amor, mas as dos deficientes, são anjos dos Céus engastados na Terra.

Sou um fruto deteriorado, mamãe, mas estou deficiente, não sou deficiente!

Momentaneamente minha forma está defeituosa, mas, no fundo do meu inconsciente, eu não sou assim.

Não te culpes, mãe! Não te culpes pela minha apresentação! Quando te mostrarem, novamente, o meu retrato na caverna, tenha piedade da minha pobre forma e dá-me a chance de viver o quanto me foi designado!

Preciso de ti, da tua ternura, da tua renúncia. Levarás contigo, para sempre, a minha gratidão.

Sou viajor do infinito, meu tempo é determinado por Deus.

Recolheste as minhas respostas de forma imprecisa.

Já é noite alta, no momento em que um computador invisível ajuda-me a grafar-te estes meus pensamentos.

Amanhã deverias internar-te para retirar-me à força da caverna. Estava tudo marcado.

Acabas, no entanto, de ler o jornal, em que viste a pequenina mão de um feto a segurar o dedo do cirurgião que o estava operando no ventre materno, para salvá-lo da morte. Nesse momento, foi como se recebesses, de forma clara, de uma só vez, todos os meus pedidos de socorro. Decidiste que eu continuarei a viver o tempo que me foi determinado.

Ah!, mãe, não podes ouvir, perfeitamente, meu choro de alegria, mas registra os meus pensamentos inarticulados:

Obrigado, mãe! És o anjo do Céu que me arranca das trevas para a luz!

Um dia, após a minha morte, quando as estrelas voltarem a brilhar no meu Céu

novamente, nós tornaremos a nos encontrar! Abraçar-nos-emos, sorrindo e chorando de felicidade, porque minha forma estará tão bela como a luz do luar!

                Até sempre, anjo da minha vida!

                Beijos do filho grato, que não te esquece.

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